quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Pombo Enigmático




Na inelutável necessidade do amor (era quase primavera) pombo e pomba marcaram um encontro galante quando voavam e revoavam no azul do Rio de Janeiro. Era bem de manhazinha.


- Às quatro em ponto me casarei contigo no mais alto beiral – disse o pombo.
- Candelária? – perguntou a noiva.
- Do lado norte – respondeu ele.


Pois, às quatro azul em ponto, a pomba pontualíssima pousava pensativamente no beiral. O pombo? O pombo não.


A pombinha, que era branca sem exagero, arrulhava, humilhada e ofendida com o atraso, contemplando acima do campanário todas as possibilidades da rosa-dos-ventos. Mas na paisagem do céu voavam só velozes andorinhas garotas porque as andorinhas mais velhas enfileiravam-se nas cornijas, pensando na morte, como gente fina, lá dentro nos dias solenes de missa de réquiem.


Quatro e dez. Quatro e um quarto. Uma pomba sozinha, à mercê quem sabe de um gavião, lendário mas possível. Sol e sombra. Como custa a passar um quarto de hora para uma noiva que espera o noivo no mais alto beiral. Como a brisa é triste. Como se humilha em revolta a noiva branca.  

Ah, arrulhou de repente a pomba, quando distinguiu, indignada, o pombo que chegava, o pombo que chegava caminhando pelo beiral mais alto, do outro lado, lá onde, um pouco além, gritavam esganadas as gaivotas do mar pardo do mercado. Irônica, perguntou a pomba:
- Perdeste a noção do tempo?
- Perdão, por Deus, perdão – respondeu o pombo: - Tardo mas ardo. Olha que tarde...
- Que tarde? – perguntou a pomba.
- Que tarde! Que azul! Que tarde azul!
- Mas e eu?! – disse a pomba. – Sozinha aqui em cima!
- A tarde era tão bonita – disse o pombo gravemente – a tarde era tão bonita, que era um crime voar, vir voando...
- Mas e eu?! Eu?! – queixava-se a pomba.
- A tarde era tão bonita – explicou o pombo com doce paciência – que eu vim andando, que eu tinha de vir andando, meu amor.
                                               
                               PAULO MENDES CAMPOS

P.S.: Este é um texto que me encanta desde a primeira vez que o li! Fiquei, e ainda fico, fascinada com a displicência romântica do pombo e a frustração irritada da pombinha: casal com desencontros e diferenças como todos nós. E fico sempre do lado do pombo: como deixar de usufruir de uma lenta caminhada numa bela tarde?

23 comentários:

  1. Como dizia minha querida Gostosura, ara, ara esse pombo que abandonou a pombinha a lhe esperar.
    Deveria ter lhe cumprido o combinado e como passeio que os noivos dão pela cidade, tomar sua recem esposa pelas asas, e levar-lhe passear...Ara ara....bjo Quérida....

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    1. Oi, querida!
      Sabe que nunca pensei nessa coisa de que ele poderia chegar na hora, casar e, só então, levar a esposa para passear pela tarde azul? Caraca! Como falei: sempre fico emocionada com sua justificativa sobre a beleza da tarde!
      Bjsssssss, quérida!

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  2. Oi Cléa :)
    Que bonitinho esse texto.
    Achei essa pombinha muito ansiosa e impaciente.
    (Tudo bem que ninguém gosta de ficar esperando muito tempo!).
    Mas custava apreciar,a linda tarde?!
    Também fiquei do lado do pombo!
    Bjs!

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    1. Oi, querida Clau!
      Pois é, eu até entendo o "esbaforimento" da pombinha, mas esse pombo, vamos combinar, é tudo de bom, né não?
      Adoro! rssssssssssssss
      Bjssssssss, quérida!

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  3. Cléa minha querida, primeiramente queria agradecer pelo carinho no meu blog, graças a Deus estou um pouco melhor, obrigada viu? Quanto ao texto achei muito fofo, e estou do lado do pombo, por que sabemos o final da história, mas se ponha no lugar da pombinha irritada e veja se nós mulheres em geral não ficaríamos irritadas e nem deixaríamos o nosso pobre pombo se explicar kkkkkk Ah se não seríamos! Claro que teriamos a mesma atitude da noivinha nervosa hehe. !Bjocas

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    1. Oi, minha querida, estou com saudades!
      Ah, mas tb fico com pena da pombinha! rssssssssss E, claro, se fosse comigo, eu baixava o sarrafo no pombo! rsssssssssss E que não fosse besta de me deixar esperando: a coisa ia ficar pretíssima pro lado dele, mas depois o enchia de beijinhos! rssssssssss
      Bjssssssssssss, quérida!

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  4. Oi Cléa!
    Muito legal!
    Não podemos tirar a razão do pombo, perder a beeza de uma tarde ensolarada, se bem que desfrutar as belezas a dois é muito melhor.rsss
    Beijinhos!

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    1. Oi, querida Valéria!
      Sabe, já nem sei se desfrutar as belezas a dois é muito melhor: corre-se o risco de só se olhar a belezura que o outro é! rsssssssss
      Penso, neste momento, que há certos passeios que se desfruta mais a sós. Não sei.
      Bjssssssssssssssss, quérida!

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  5. Oi Cléa ,é a Vi, o conto é muito legal, mas do jeito que não suporto esperar, marcar uma hora e ter que ficar esperando me irrita, acho que se eu fosse a pomba, esse pombo nunca ia contar porque ele não chegou no horário,kkkk
    muitos beijos,Vi

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    1. Ai, querida Vi, coitado do "seu pombo"! rssssssssssssssss
      Também não gosto de esperar não, tanto que não costumo atrasar-me, ao contrário, se possível chego antes. Sou ansiosa. Então, querida, mesmo ficando do lado do pombo, tb eu daria um chilicão!!! rsssssssssss
      Bjssssssssssss, quérida!

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  6. Oi minha amiga vc sempre tem o poder de me fazer sorrir. Baixava o sarrafo no pombo foi hilário kkkkk. Então amiga quanto a sua dúvida da massa da torta, é o seguinte: Toda massa de torta a base de manteiga, tem que reservar na geladeira até o momento de abrir, colocar o recheio e ir ao forno, para a manteiga não derreter e ir gelada para o forno. Se deixar ela fora da geladeira, a massa não fica boa. Entendeu? Qualquer dúvida pode me perguntar ta? Bjocas

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    1. Ora, querida, mas é claro que pergunto, nem duvide!!!
      Até estive pensando em fazer hoje essa massinha, mas recebi visitas quase na hora do almoço, depois as coisas embolaram, ah mas quem sabe amanhã, né não?
      Até parece que eu baixava o sarrafo, né? Fico só na vontade! rssssssssssssss
      Bjssssssssssssssssssss, querida!

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  7. Ó, esse pombo é muito "poético" para a minha ansiedade...kkkk. Tadinha da pombinha...se ele quisesse mesmo ver o azul do céu, que pensasse antes de marcar o casório. No meu caso ele ia me encontrar chorando feito uma louca...E se me pega no "pico" da raiva, também como você, desceria o sarrafo nele....kkkk (Nós somos violentas né?.....kkkk).
    Pombo besta...

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    1. Oi, querida, pra minha ansiedade tb! rssssssss
      Violentas nada, a gente é "garganta"! rssssssssss Nós num é de briga!!! rssss
      O pior é que a gente gosta desse tipo, né não? rssssssss É, pq qdo eles chegam... hummmmm, a festa tá feita!
      Bjssssssssssssss, quérida!

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  8. De uma sensibilidade linda. Preciso ler Paulo Mendes Campos. Um dos nossos melhores contistas.
    Beijo, amiga. Adorei suas palavras, muito sábias. Vai passar, já está passando, viu?

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    1. E este conto então, para mim, é fantástico! Adoro!
      As palavras que lhe deixei são palavras de quem teve que ir se aparando no grito, no susto, na necessidade. E nessas situações, fazemos boas descobertas. Não há sapiência, mas experiência. Em dor? É, em doer e rir ao mesmo tempo.
      Bjssssssssssssss, quérida!

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  9. Minha amiga, não sou muito de ficar do lado dos homens, mas a esse pombo tenho que dar razão...um crime seria vir voando e desperdiçar a alegria do desfrute de uma tarde azul...mas as mulheres nunca vão entender os homens, e vice versa...uma metáfora bem aplicada essa...ahhhhh...por que essa pomba não aproveitou o tempo de espera e aproveitou também o azul do céu...talvez ela ainda não tivesse aprendido a curtir sua própria companhia...talvez...

    Boa noite, grande abraço,
    Renata

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    1. Então, querida, não é fato?
      A gente se solidariza com a pombinha, mas convenhamos que a desculpa dele para o atrazo é incontestável!
      E ela poderia ter feito o mesmo, tb concordo! Como concordo sobre ela ainda não ter aprendido a curtir a própria companhia: importanteeeee!!!!
      Bjssssssssssssss, quérida!

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  10. Amiga, tenho que concordar e discordar.
    Que linda tarde! De admirar!
    Mas penso na pombinha aflita e ansiosa, a esperar
    e o relógio a retardar longas horas...
    preciso ficar do lado da pombinha,
    porque sei muito bem o peso de sua angústia
    a tropeçar no tempo, sem divisar no horizonte
    a figura de seu amado promitente e nem o fim de sua elástica demora...

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    1. Oi, Cissy querida! Saudades!
      O legal nessa história é que, de fato, ela nos envolve! E vamos de um lado para o outro: o pombo? Ou a pombinha?
      Bjsssssssssssssssss, quérida!

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  11. Este pombo vingou os muitos noivos que ficam horas no altar esperando suas amadas atrasadas que por tradição ou sei lá o quê os deixam ali plantados, né não? Ponto pro pombo...hehe

    Bjs

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    1. Isto, querida Lourdes!
      Nem tinha pensado assim, mas é um bom argumento para a defesa do pombo romântico, né não? Adorei!
      Bjsssssssssssssss, quérida!

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  12. Olá amiga.
    Vim aqui fazer mais uma visita e poder ler mais esses textos do seu blog, me deliciando com cada linha
    Desejo um fim de semana feliz

    Abraços,
    RioSul

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Muito obrigada por participar do meu blog com o seu comentário.
Bjssssssssssssssssssssssss